
Conversa vai, conversa vem e eis que o camarada solta que pagou uma batelada de dinheiro, de 2 dígitos seguidos e 3 zeros, em um escudo protetor de magia em um jogo online.
Estou falando de 2 dígitos seguidos e 3 zeros, porque é legal andar como um Deus pelo jogo. É aquele número que você não aprende no “prézinho” e só vê na sua conta bancaria (pausa reflexiva). Quando será que eu vou ver essa grana na minha conta, hein?!
A aula continua e o foco das atenções vai para o Willian Bonner e seu twitter. Porque ele precisa ser jornalista 24 x 7 e só dar noticias o tempo todo.
Imagina que legal a forma como as pessoas imaginam o café da manhã da família: “Bom dia, bem. Uma criancinha chinesa acabou de tomar um tombo ao ir de bicicleta para escola”. Ai a Fátima responde “Bom dia, bem! Puxa, no México, aconteceu algo semelhante, mas o que mais me causou espanto esta manhã foi o caso daquele senhor que comeu um ovo estragado”. Aí chegam as crianças: “Papai, Papai, Papai” E o jornalista-pai (nessa ordem) responde: “Filho, você ficou sabendo da história do pai que escravizou o filho e o obrigou a ficar jogando RPG online pra tirar uma grana?”. Ele responde: “ E o homem incrível não apareceu pra intervir porquê?”.
Do fundo da sala alguém revela. “Trabalho em assessória e um cliente me ligou pra dizer que quer que o Willian Bonner fale no twitter dele sobre o evento X que vai rolar.” Aí ela genialmente respondeu. “Claro amigo, vou ligar pra ele e falar Bonnão, quebra essa?”. Alguém completou: “Você pode ligar pro assessora dele que ele deve cobrar uma grana e fala”.
Para, para, para, para, para e pensa.
A idéia da web 2.0 não é a conversa de pessoas com pessoas? Então por que cargas d água o bonitão compra o tal escudo em vez de jogar e interagir com os outros coleguinhas para consegui-lo? Por que o produtor do evento não deixa quem quer falar, falar sobre evento falar.
Eu não sou contra o e-commerce, pelo contrario, acho que podem surgir idéias geniais. Como a história das sementes azuis da colheita feliz na época da páscoa, que trouxe de presente para os usuários do joguinho pés de bis.
O que me causa medo é a legitimidade e promiscuidade disso tudo. Me assusta uma pessoa ser paga para falar em nome dela, não em nome de uma instituição, sobre um evento que talvez nem o interesse.
Inocência a parte, isso sempre existiu. O que me deixa agoniada é ver que estamos deixando passar uma oportunidade incrível de nos tratarmos como pessoas. Cada vez mais cedo, as crianças fazem amizade com pessoas distantes e aprendem uma série de coisas sobre tolerância e respeito às diferenças. Era esse o momento de resgatar e disseminar “paz e amor”, ensinar e aprender o que é respeito. As pessoas são diferentes e não há problema nisso.
Seria um aprendizado sem dor nenhuma, pelo contrário, no mínimo iríamos retardar o julgamento para com o outro. Na internet a gente não vê só o olho, o cabelo e a bunda.
A gente tenta entender a forma como a pessoa se expõe, o que gosta de fazer, falar, ouvir, ler. Pode conversar, conhecer, ajudar...
O “viralzinho” é meio clichê, mas faz um sentido absurdo: “ As crianças estão colecionando pulseirinha do sexo e os adultos álbum da copa.” Está tudo muito estranho e ninguém esta fazendo nada pra mudar.
